portfolio
KOU
MATSUSHITA


expectativa do ideal
É importante retornar um pouco ao questionamento inicial, nesse processo do TCC, sobre minhas expectativas sobre esse trabalho de arquitetura. De uma certa forma, esse TCC foi, desde o início, uma brincadeira com minhas expectativas. No começo, idealizava fazer uma animação, representando o que seria (e o que foi, mentalmente) projetar uma casa ideal. Lembro-me de sonhos criados, na época, em conjunto com pessoas com quem pensava construir minha vida, e como tais sonhos foram mudando. Como a vida foi mudando. Penso nessa casa ideal, penso nessa situação ideal, e no projeto ideal. Vejo como esses também, foram mudando. Mudei - ou mudaram - minhas expectativas sobre o que seria esse ideal à mim, o que acabou se alastrando para minhas interpretações sobre diversas outras áreas da minha vida com relativa importância.
Essa mudança era como minha entrada ao que chamamos de terapia; a passagem da porta ao banco, e do banco à palavra. Uma conversa com o nada, e um nada me instigando a tudo menos ele. Uma expectativa de cura, de um querer ser, retornando apenas um “por que?”. Com a expectativa, e munida da pergunta, devo pensar sobre minha vida pessoal, profissional, amorosa; problemas, acontecimentos bons e ruins, tristezas e felicidades momentâneas. Aqui, penso sobre a arquitetura, e minha presença nela. Quando o nada me pergunta sobre o tudo, só penso no que há entre eles, e entre nós. Há uma distância de um metro e meio, ao mesmo tempo que uma distância infinita; uma distância que não sei exatamente definir em palavras, em parte porque creio não haver a possibilidade para essa tradução. Engraçado, pensar nesse espaço não traduzível. Me lembra de conversas que tive sobre o espaço - e seu manuseio, produção -, seja com colegas da faculdade, ou amigos mais próximos. Me lembra de conversas que tive com uma das pessoas mais importantes em minha vida, e como essa formação na arte de projetar, ou construir, infectou nossa vida e como a vemos.
Nos armaram com o conhecimento do que realmente é uma cidade, e o que é a vivência em comunhão, com um teórico tão denso que nossa própria densidade acaba se diluindo na cabeça desses outros vivos e outros mortos. Todas as vezes que entrávamos em uma discussão sobre arquitetura, falávamos o que nos falaram, pontuando algumas experiências pessoais, mas acabávamos na mesma perdição do que seria esse domínio que nos deram. O domínio do espaço, e do caráter comunicativo da materialidade. O via em cada breve saída de meu apartamento, enquanto percorria as escadas, até eventualmente chegar no hall de meu apartamento, decorado conforme padrões estéticos que tendem a neutralidade, até sair de casa. Não sabia se algo procuravam comunicar, ou se isto tentavam permitir, ou restringir. Era como a sala de espera que ocupei até pouco tempo atrás. Como a distância entre eu e o nada personificado. Entre um eu que nada sabe e um eu que crê saber. Um entre pequeno, mas um entre enorme. Então, como entrei aqui, saí lá, observando as pessoas que andavam perto de mim, os prédios concorrendo com outros prédios, e muitas e muitas palavras.
​
Quase que inconscientemente, mas somente quase, tentava fazer caber o que via, e sentia, no que sabia. E nisso, via mais do que devia. Uma pessoa não era somente uma pessoa, e toda aquela pessoa: era um cidadão. Era um produto de uma confluência de conflitos em uma escala maior e nela se encaixava discretamente, como eu me encaixava. Não era só uma pessoa, e toda uma pessoa, mas um resultado.

Via a tudo e todos como uma flecha à lá aula de engenharia, representando a direção exata de uma força. Era mais um neutro eventualmente carregado. Acho que outras pessoas próximas a mim também se sentiam assim. Cada uma perdida no que era ser um invólucro para um mundo que já sabe como existir sem você. É engraçado, também, esse sentimento. Esse sentimento esquisito de se ver quase carregado por uma correnteza que não te é, mas te faz você, enquanto ser social; ao mesmo tempo que procurando sua própria identidade dentro do constrangimento moral de se existir.
Era o que faço, agora; e o que fazia em uma sessão de terapia. Olhava para o nada, em busca do que gostaria de saber que sou. Em troca, me olhava: olhava esse ser prestes a se formar em uma faculdade de arquitetura, procurando entender em que exatamente estava se formando, esperançosamente buscando no nada tudo que ele não é, e nunca vai ser. Observava novamente a distância entre nós, me perguntando o que aconteceria se me levantasse, e lhe desse um abraço. Receberia um abraço de volta? Me carregaria desse seu nada, e me esvaziaria do peso de ser um corpo que é, meramente, carregado? Serviria essa distância entre nós, como um caminho a permitir-nos tocar, ou permaneceria em sua infinitude inalcançável? Sem resposta, retornava ao tudo que não ele. Retornava à perdição. Retornava a amizades em suas crises por não saberem o que fazer de suas vidas, enquanto fumavam como ritual de descanso.
Choravam, pensavam, falavam, e tentavam traduzir tudo que faziam elas, elas, em palavras. E falhavam. Independente de qualquer referencial teórico, do qual creio que já nos bastamos, a perdição em tentar ser o todo que nos obrigam a ser, ao mesmo tempo que ser o nada que nos é por natureza, é uma falha comum. Excetuando, talvez, aqueles que se encontram na falha - em paz por não serem o que lhes pedem a serem -, ou se iludem por pensar que são o todo que lhes é imposto. Ou seja, aqueles que encontraram seu próprio “onde” ao qual caminhar, ou os que se contentam plenamente com a mão que lhes guia. Seja por ignorância, ou por inteligência. Uma mão pesada, essa. Mas, finalmente, somos todos apenas um entre. Lembro de aulas e disciplinas que adoravam explorar essa ideia do entre. Houve uma pessoa que explorou um conceito japonês de “Ma”, sinteticamente resumindo esse entre em um som, em uma palavra. Então imaginei essa pessoa me reduzindo a esse som, e assim me chamando, até lembrar que possuía, eu, um nome. Pertence a mim, mas também pertence ao mundo. Cada pessoa, imagino, possui um compilado de sentimentos, interpretações e sensações agregadas ao meu nome. Algumas, de forma mais negativa, e outras, de forma mais positiva. Gosto de pensar que meu nome representa, para as pessoas que amo, o conforto que gostaria que tivessem. Gosto de pensar que meu nome lhes invoca um eu que os deixam felizes, ou tranquilos. Também gosto de pensar que meu nome lhes indaga, e os fazem mais menos; que eu não represente apenas mais uma força em suas neutralidades. Gosto de pensar que meu nome representa, para eles, mais do que só um cidadão, mais do que só uma resultante de algo que não controlo. E assim, meu nome se torna mais uma expectativa minha de quem deveria ser.
Acho difícil pensar no nome sem retornar a onde foi concebido. Pelo que me recordo, todas as vezes que conversei sobre nomes com alguém, houve alguma menção sobre as pessoas que o deram. Engraçado pensar que algo tão nosso, não foi por nós criado (na maioria das vezes). Nos é herdado essa entidade à nos definir, para nós e para o mundo, como herdamos um relógio, um traço de personalidade, ou uma casa. Até hoje, penso sobre como descartei meu nome em prol de outro, ao mesmo tempo que, dele, não consigo me desfazer. Então entendi que não é só meu para descartar. Afinal, nele carregam suas expectativas e interpretações sobre mim, como eu mesma faço. Quase consigo reviver minha vida, saindo de uma infância animalesca até me tornar uma pessoa, e quase consigo lembrar dessa passagem ao meu nome. Um nada à se tornar um projeto de tudo. Um entre, que não se conforma em ser o entre. Tampouco se conformam aqueles que me tornaram um entre. Me lembro de diversos conflitos que já tive com familiares, quase todos residindo nesta casa mal construída do ser tudo, como um projeto não finalizado pois não há como finalizá-lo. Não há espaço para comportar essa existência, mas ainda assim o desejavam. Uma existência entre uma criança e um adulto; um desempregado e um trabalhador. Creio que falta-nos a consciência que o entre é inteiro, por si só, pois assim o somos. Vejo, em meu pai, a tentativa irrefreável de ser o que lhe foi imposto como o tudo; o certo, e a imposição dessa certeza. Vejo, em minha mãe, a luta constante com esse certo, mas também nele se inteirando. Décadas e séculos de um constrangimento moral que os fez pai, e os fez mãe, e me fez filha. Me lembro de um dia em que conversava com uma amiga, que questionava a ambição do pai. “Como assim, a única vontade dele é querer um carro novo?”, creio dizer, quase questionando a diferença geracional de um ser que só age e um ser que só pensa.

Nos falta um pouco da tentativa, da brincadeira. Enquanto pessoa arquiteta, ou quase isso, uso desse meio para pensar em minha própria vida também. A ideia do projeto, como esse ideal a ser alcançado mesmo sabendo que nunca será. De um nome, como o espaço de uma palavra que armazena imagens e expectativas externas e internas sobre quem seríamos, ou deveríamos ser. Tenho essa imagem em minha cabeça, de pessoas projetando a vida de outras: milimetricamente definindo os passos a serem dados, os caminhos a serem seguidos. Os conhecimentos a serem obtidos, e a vida a ser vivida. Acredito que, de forma muito limitada, já fiz isso. Me lembro de projetar casas e apartamentos, e definir como elas nestes viverão. Com algumas exceções, realmente vão seguir meu projeto, e vão viver conforme gostaria que vivessem, pois também estão moralmente constrangidos. Não irão derrubar a parede que divide o apartamento vizinho, tal como não irão derrubar o chão que, para outros, é um teto. Criamos o que há entre várias existências separadas, tal como controlamos seus contatos com pessoas que sequer residem onde projetamos, e onde construímos. Mas o fazemos à nossa própria vida também: projetamos, idealizamos, construímos e então nos perdemos de novo, à incorporar o novo projeto que ocupará nosso tempo. Fazemos caber projetos externos sobre nossa própria vida, e procuramos incorporar nossos próprios desejos do que gostaríamos que esta seria. Antes falava da palavra, pois sinto que usamos ela como esse espaço onde poderíamos encaixar o entre que existe entre essa dualidade em que nos encontramos, como o faz nosso nome. Um entre de expectativas externas, e internas, que usamos para nos comunicar com quem não nos é. Mas também vejo agora a dificuldade de entender como seria pensar nesse espaço sem reduzi-la às dualidades . Como seria projetar para o entre, e no entre.


