top of page

portfolio

KOU
MATSUSHITA

TCC

terceira remessa

o caminho certo

 

Quando decidi cursar arquitetura, lembro que considerava a arquitetura uma forma de arte, mas de forma muito contemplativa. Achava que arte era esse ofício da contemplação, e meramente isso, sendo apenas uma obra a ser exposta. Me maravilhava com sua resistência ao tempo, gostava de considerá-la quase que estática e impermeável à vida. Como um quadro pendurado, sem muito representar além de sua própria beleza. De certa forma, acho que ainda considero a arquitetura uma forma de arte. Claro que, diferentemente de antes, valorizo mais, hoje, seu potencial comunicativo do que seu valor contemplativo. Mas ainda assim, tem uma definição um pouco fugaz, até mesmo internamente à mim. Já muito pensei sobre arte. Tentando encontrar definições, talvez um sentido. Analisar a própria análise de arte, entender quais os critérios usados para definir esse conceito meio amplo. Me imaginei em discussões com uma pessoa artista que acredito viver, ou já ter vivido, dentro de mim. Arte me parece um conceito tão elusivo quanto esses intangíveis que a gente acredita sentir.

​

Comecei com um pensamento simples, me lembrando de algumas conversas um pouco acaloradas que tive acompanhada de amizades e cerveja. Creio termos chegado na conclusão de que, de certa forma, tudo pode ser arte. Mas como valoramos a arte? Tecnicamente, a partir do ferramental utilizado e os conhecimentos utilizados para manipular tal ferramental? Ou funcionalmente, com uma interpretação causa e efeito que cada peça ou meio artístico provoca em nós? Talvez situacionalmente, a partir de como agregamos valor dependendo das ocasiões que envolvem alguma entidade que chamamos de arte? Analisando assim, realmente, não pode ser, tudo, arte? Como um quadro, pintado de tal forma, com tais cores; cores essas que provocam, por alguma associação que fazemos, algum sentimento; e algum sentimento que atrelamos a alguma situação. Tal descrição não poderia ser atrelada a qualquer coisa, ou momento que interpretamos como tendo algum valor a nós?

env_aberto_edited.png

Muito criei paralelos entre minha própria vida e tudo que procurei explorar nesse TCC, seja o projeto, a arquitetura, etc. Imagino que seja porque, quando penso sobre arte, muito penso sobre mim. Me vejo como a obra de minha vida, pelo menos até agora. Anos e anos meticulosamente projetando e idealizando um futuro, e um presente. Uma personalidade quase cirurgicamente construída, com palavras, gestos e sentimentos certos para qualquer momento que as demandem. Ao mesmo tempo, com a audácia de deixar minha expressão ao mundo ser afetada pelo que realmente penso e sinto. Tenho medo, um dia tal projeto realmente se tornar perfeito, como execução quase selada a vácuo. Caso acontecesse, seria meu nome quem realmente sou, quebrando quaisquer limites que hoje traço entre esse espaço que abriga minhas e outras expectativas sobre mim, e quem me tornaria? Genuinamente temo essa ideia. Sempre tive um tato para construções de entidades extremamente complexas, tal como construo hoje todas as palavras e suas eventuais junções para traduzir o que sinto; tal como construo hoje essa entidade que visto como minha expressão ao mundo. Tal como construí, ou participei da construção, de diversas casas a servirem de expressão, e mediação, à alguém. Ao mesmo tempo, me parece também que tudo isso que digo e interpreto sobre minha realidade não vai além do que chamaria de normal. Sou uma pessoa simples, sentindo coisas simples, mas tenho o dom de complexificá-las a ponto de abandonarem essa simplicidade. Tenho, eu, medo da simplicidade? 

Agora, tenho medo de produzir obras de arte. A simplicidade, assim invocada aqui, não passa do entre que já comentei: é natural, imagino, temer algo que não fomos nem somos criados para sermos. Complexificamos pois assim controlamos, e uma vida sem controle é, incrivelmente, banal. Enquanto analisava uma quantidade significativa de vida, foi que percebi que há uma certa banalidade na existência. Utilizamos do acaso como desculpa - ou motivo, justificativa -, para o andamento de algo similar à destino. Melhor, creio que quase como meio termo entre motivo e artífice, como um olhar cruzado à iniciar um romance, ou uma ultrapassagem no trânsito à iniciar um conflito. Como os cachorros cheiram bundas alheias, coexistimos em fluxo até o minimo dos contatos nos desviar, ainda que mantendo a direção inicial. Achei cômico. A existência em conjunto tem em si uma banalidade de forma tão crua que é quase poesia em si.

Segue, ao mesmo tempo que independe de algo construído, pois é carne e pensamento ao mesmo tempo, como um silêncio imperativo impregnado de seu ruído arbitrário. Tal percepção se nasceu de mim, e em mim, quando não ouvia nada além da vida, não partindo do que define a vida, do que define o todo e toda sua moralidade. Ouvia o que faz a vida, vida. Pessoas jogando frescobol, abelhas defendendo sua colmeia de crianças inocentes. Novos casais aprendendo a serem um casal, imersos no recém-descoberto desconforto do silêncio, mas sem a ele se resignar. E, de alguma forma, tudo isso ao mesmo tempo, cada situação autônoma em sua existência, mas coexistentes e correlatas em minha cabeça. Por mais que a banalidade sempre possa ser identificada como tal, a beleza que hoje vejo nela não me vem como vinha sua feiúra. O desprezo do banal vem com a não-banalidade de meu próprio pensamento. Desconhecer a autonomia da vida é relacioná-la a mim, e relacioná-la à mim é um questionamento direcionado. Mas o questionamento não passa da ilusão de dependência entre partes: a dependência da existência ao que a define. Não a há. Definimos e nos adequamos ao todo pela conveniência do que isso representa enquanto ser humano, enquanto sociedade, mas estamos constantemente sendo entre e vivendo entre. 

envelope_edited_edited_edited.png

primeira remessa

envelope_edited_edited_edited.png

segunda remessa

env_aberto_edited.png

terceira remessa

envelope_edited_edited.png

quarta remessa

envelope_edited_edited.png

remessa inicial

bottom of page